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Fortaleza na vissão da fé

Fortaleza na visão da fé
A pessoa humana, toda pessoa humana, deve estar no centro de todo e qualquer planejamento de melhoria sócio e econômico, político e cultural. De acordo com o projeto de Deus Pai, percebemos a urgência de uma grande atenção, no presente em que vivemos, evidentemente voltando-se para o futuro de nossa sociedade, como um sinal de esperança, quando se exige interpretar os sinais de Deus, à luz da sua própria Palavra, a nos indicar uma nova história, um novo futuro para a humanidade.1
“Se desejamos avançar e progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma nova história” (Mahatma Gandhi). Nosso artigo, quicar, seja uma ajuda para uma tomada de consciência e posição firme e segura, em nome da ética, da moral e, sobretudo, através da fé, no sentido surgir caminhos e saídas, na delicada questão da vida aqui neste mundo em que vivemos, na nossa cidade de Fortaleza e em todo Brasil.
Devemos ter consciência clara de que o batismo está na origem de todo o trabalho da Pastoral de Conjunto e de toda a ação missionária da Igreja. Os batizados, inseridos em Cristo e por Ele no Pai e no Espírito Santo, são enviados ao mundo para salvar o mundo (Lumen Gentium, 48). Numa realidade de opressão, profundamente marcada por sinais de morte, como é bom e maravilhoso ouvir a voz do nosso Deus a nos interpelar: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: Não fecheis os corações como em meriba” (Sl 94, 8)
Que a nossa ação seja verdadeiramente dentro da visão cristã. O último livro da Sagrada Escritura, o Apocalipse, apresenta-nos a cidade como ela deve ser, a nova Jerusalém, a cidade santa, obra de Deus e também obra dos homens que vivem o projeto de Deus. “Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: Ah! Se neste dia também tu conhecesses a mensagem de paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos!” (Lc 19, 41-42). E o que fazemos hoje em relação à Fortaleza, especialmente, agora neste tempo em que antecede a Copa e que a mesma se prepara? Escutamos muitas reclamações e queixas, contra a remoção para a periferia da cidade dos moradores das comunidades onde vão passar os veículos leves sobre trilhos (VLT) vindas dos moradores que estão sendo atingidos.
Olha, voltando para o Cardeal Lorscheider, de saudosa memória, vejamos o que ele tem a nos dizer: “Devemos ser uma Igreja que sabe escutar e, escutando, aprofundar e encarnar a Palavra de Deus na vida. Igreja que ajuda a construir a nova sociedade, em total fidelidade ao homem, no Espírito Santo. Os batizados, inseridos em Cristo e por Ele no Pai e no Espírito Santo, são enviados ao mundo para salvar o mundo” 2
Que a todo tipo de carência e dependência existentes entre as pessoas nesta nossa querida cidade de Fortaleza, possa se transformar em solidariedade fraterna, numa bela convivência de paz e harmonia entre seus moradores, na esperança de que “nós não temos aqui cidade permanente, mas vivemos à procura da cidade que há de vir” (Hb 13, 14).
Daí nossa ação concreta, no sentido de responder à luz do Evangelho, aos anseios de todos os que aqui moram. “A cidade deve ser um espaço de convivência solidária para todos os que nela moram, convivência que seja resultante da convergência de esforços para tornar a cidade sempre mais humana e também mais cristã” (Dom Aloísio Lorscheider).
Pe Geovane Saraiva
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1 Dom Aloísio Lorscheider, Carta Pastoral sobre o uso e a posse do solo urbano, 1989
2 Carta sobre a ação pastoral na Arquidiocese de fortaleza, de 1989.

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Medalha Dom Helder, O ARTESÃO DA PAZ

Medalha Dom Helder Câmara, o Artesão da Paz
A Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (ALMECE), na pessoa do seu presidente, Francisco Lima Freitas com anuência dos seus pares, no uso de suas atribuições, instituiu a Medalha Dom Helder Câmara, O ARTESÃO DA PAZ, e o primeiro a receber será o padre Geovane Saraiva, considerando sua disposição de ficar a frente da COMISSÃO que organizou o Centenário de nascimento (1909-2009) de Dom Helder Câmara.
A contribuicão do querido padre Geovane foi imprescindível para que a força da figura humana, o homem dos grandes sonhos e utopias, que se transformou noutro “Cavaleiro Andante” fosse mais conhecida, não só entre nós cearenses, bem como no nosso querido Brasil e no mundo inteiro.
Assim, nós da ALMECE, com essa iniciativa, ao mesmo tempo em que fazemos justiça, rendemos graças ao nosso Bom Deus, através de Dom Helder Câmara, que dizia: “quem me dera ser leal, discreto e silencioso como a minha sombra”.

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Deus vem nos salvar

Deus vem nos salvar

É a eternidade inaugurada pelo nosso Deus e Pai, que há mais de dois mil anos se repete através de nossa fé e do nosso testemunho, sempre a partir do lugar pobre da estribaria de Belém, no mistério que sempre quer se renovar e se eternizar em nós, já aqui neste mundo.
Deus quer que nós trilhemos seu caminho, num constante desejo de superação e renovação: “Dizei aos covardes: Tende coragem, não temais! Eis o nosso Deus! Chega à vingança! A retribuição de Deus chega para nos salvar!” (Is 35, 4).
Um itinerário verdadeiramente cristão se percebe pelo seu constante desejo de renovação, de mudança espiritual e interior. As pessoas que abraçam a Palavra de Deus e também buscam o alimento da Eucaristia, jamais se afastam do grande ensinamento do enviado do Pai, ao afirmar: “O Cristo que sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza (Cf. 2Cor. 8, 9), como a grande novidade, sempre presente, nos gestos de acolhida, na solidariedade e na justiça.
E exatamente por causa do trinômio: acolhida, solidariedade e justiça, que somos chamados a proclamar pela nossa fé que a pessoa humana é sagrada e inviolável na sua dignidade e ao mesmo tempo, reafirmar que foi um dos grandes serviços prestados à humanidade pela Igreja. O Concílio Vaticano II até enumera os principais direitos: alimento, roupa, habitação, a escolha do estado de vida, constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de seguir a própria consciência, direito à proteção da vida particular, à justa liberdade, inclusive à liberdade religiosa (cf. Gs, n° 26).
Advento é um tempo rico, forte e precioso das graças de Deus, em que não podemos deixar passar despercebido. O convite que Deus nos faz é o de endireitar e colocar no rumo certo tudo que está tortuoso em nosso coração, substituindo a realidade de pecado e injustiça pela proposta que nos é oferecida, transformados e redimidos na graça de Deus, na certeza que ele, no seu esplendor, virá para visitar o seu povo na paz e fazê-lo viver a vida eterna.

O momento deve ser de atenção e vontade de escutar o mistério que nos quer envolver: “Sim povo de Sião, o Senhor vem para salvar as nações! Na alegria do coração o Senhor fará ressoar majestosa sua paz” (Is 30, 19.30). Senhor meu Deus, “concede-me uma inteligência que te conheça, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre uma vida que te agrade. Uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que te possua sempre” (Santo Tomás de Aquino).
Um feliz Natal!
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Deserto: lugar de Deus

Deserto: lugar de Deus

Pela importância de tema, seria necessário um trabalho científico, porque é impensável qualquer entendimento nesse campo espiritual, sem uma compreensão, no mínimo básica, do deserto como lugar de Deus. Infelizmente, a falta de um tempo suficiente e, mais ainda, das fontes que são necessárias, não favorece a realização deste ideal. Quando falamos de deserto, vem logo na mente a imagem do Bem aventurado Charles de Foucauld, na sua bela afirmação: “É na solidão, vivendo somente com Deus, no recolhimento profundo da alma que esquece o que existe para viver só em comunhão com Deus, onde Deus se entrega totalmente a quem se abandona totalmente a ele”.

Precisamos de sabedoria para compreender os sinais de Deus. Não podemos também prescindir de um espírito perseverante e ao mesmo tempo corajoso, para entrar na nossa própria humanidade, no sentido de compreendermos as diversas tentativas de fugas do absoluto de Deus, sobretudo, na certeza de que ele é Pai e nos acompanha sempre, por toda parte, mesmo quando tentamos nos distanciar dele (cf. Rm 8, 35-39). Daí é que vem a confiança e a certeza de que ele não se separa de nós; nunca e jamais perde a paciência para conosco.

O deserto deixou em Charles de Foucauld uma marca indelével. Ele dizia: “É necessário passar pelo deserto e nele permanecer para receber a graça de Deus: é no deserto que nos esvaziamos de nos desprendemos de tudo o que não seja de Deus [...].” É por isso mesmo que compreendemos que de sua incredulidade, indiferença, egoísmo e impiedade, caiu nas mãos de Deus. Foi arrebatado e seduzido por Jesus de Nazaré, que o tornou o único e o maior tesouro de sua vida. “Se alguém está em Cristo é uma mova criatura. Passaram-se as coisas antigas” (2Cr 5, 17).

Charles de Foucauld nasceu na França e viveu de 1858 a 1916. No dia 30 de outubro de 1886 se submeteu a vontade de Deus, ajoelhando e confessando os seus pecados. Experimentou uma alegria inexprimível, a alegria do Filho pródigo. Foi beatificado no dia 13 de novembro de 2005 pelo Papa Bento XVI.

Seu testemunho e sua mística encantaram os seus seguidores no mundo inteiro, numa grande paixão e fascínio per Jesus de Nazaré, concretizado no amor e na solidariedade para com os que estão longe do convívio social, os empobrecidos e excluídos, buscando na Eucaristia a força necessária para concretizar o projeto de amor do Pai. O Beato Charles de Foucauld, indo habitar e levando a Eucaristia para os irmãos no Deserto do Saara, tornou-se o homem da ternura e da compaixão, com uma enorme vontade de ser amigo de todos, bons e maus, de amar a todos, indistintamente e ser de verdade o irmão universal. Toda sua vida foi um profundo ato de amor: “Tão logo que acreditei que existia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa, senão viver só para ele”.

O caminho da contemplação e da oração torna-se itinerário dos seus seguidores e admiradores. Ele sempre se colocou no último lugar, com sua vida em harmonia com o Evangelho, reservada e discreta, não se esforçando para converter ninguém, mas querendo fazer uma única coisa: “proclamar bem alto o Evangelho com a própria vida”. A vida do Bem aventurado Charles de Foucauld, com seu martírio, no dia 1º de dezembro de 1916, não foi um valor em si mesmo. Mas foi conseqüente, com muitos motivos, ao entrar numa profunda sintonia com o Deus, na coragem do heroísmo profético, chamando nossa atenção para o conflito, porque mergulhar no Evangelho é mergulhar nos conflitos e nas tempestades (cf. Mt 14, 26-32).

O grande mérito do Irmão Charles de Fuocauld foi viver o Evangelho no meio dos conflitos e das tempestades, distanciando-se da “bondade”, como era conhecida no seu tempo. Não se contentando e até se indignando com o anúncio do Evangelho que não satisfaz, não converte e não transforma. Procurou assemelhar-se a Jesus de Nazaré em tudo, sobretudo, na paixão e no calvário. Seu martírio foi conseqüência da sua opção pelo Evangelho e a justiça do Reino.

Charles de Foucauld traçou um caminho para os seus seguidores, propondo-lhes o caminho da cruz e do Evangelho. Portanto, ao ouvir algo do irmão querido, com sua vida e seus escritos, é impossível permanecer na indiferença. Ele nos conduz e nos arrasta ao seguimento de Jesus de Nazaré, seu “bem-amado no Senhor”.

Cristo precisa de nós, não como admiradores, cheios de sentimentos, mas como seguidores. Que a voz profética desse irmão muito querido não cale jamais e que as pessoas de boa vontade se inspirem no Irmão Universal para descobrir o caminho da contemplação e da oração, o caminho de Deus, tão bem percorrido pelo querido irmão Charles de Foucauld, o deserto como lugar sagrado e de Deus.
Pe Geovane Saraiva

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O teatro da vida


A palavra que melhor define o meu discurso nesta noite é “agradecimento”. Agradecer nesta noite é o meu dever, dever na condição de sacerdote da Igreja Católica e de cidadão brasileiro. Agradeço em primeiro lugar ao Senhor Francisco Lima Freitas, Presidente da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (ALMECE), às autoridades, aos colegas que partilham comigo esta homenagem: José Juraílson Bezerra Brito, Adauto Leitão de Araújo Júnior, Diana Capistrano, Paulo Danúbio Carvalho Costa, Alana Alencar, José Maria Guedes e Haroldo Felinto, aos familiares e amigos e, ao bom povo das Paróquias, nas quais trabalhei até hoje. Quero me dirigir, de modo particular, ao bom povo da Parquelândia, com a minha presença de quase oito anos, na função de Pároco, na certeza de que somos peregrinos do absoluto em meio às coisas passageiras, a caminho do definitivo, da glória futura.
Para mim, é honraria que vai além das minhas expectativas mais otimistas de reconhecimento de meu desempenho na vida pública e sacerdotal. Confesso-me, pois, profundamente envaidecido. Esconder tal sentimento seria faltar com a sinceridade e a modéstia. Porém, percebo, com imensa humildade, que de agora em diante pesa sobre nós agraciados com esta homenagem da ALMECE uma responsabilidade ainda maior de bem desempenhar o papel social, e eu na missão sacerdotal, que nos é reservado nesse desafiante teatro da vida.
Sou um sacerdote de origem simples e humilde. Sempre procurei realizar a vontade de Deus, através da oração, da leitura e do cuidado com povo de Deus, no anúncio do Evangelho, há 23 anos, nesta cidade Fortaleza. De alguns anos para cá também escrevendo livros e artigos para jornais, revistas e sites, na minha especialidade e função de sacerdote, é claro, com um particular cuidado de permanecer sempre fiel à fé católica (cf. 2Tm 1, 12-16). É meu dever ter consciência de que a fé é o elemento imprescindível, ao anunciar as verdades da nossa fé, como nos assegura o profeta Ezequiel: “velarei sobre as minhas ovelhas, diz o Senhor; chamarei um pastor que as conduza e serei o seu Deus (Ez, 34, 11-23).
Jesus nos indica caminhos novos e nos liberta para que possamos ir ao encontro dos irmãos e irmãs. Foi assim que ele fez com os profetas de todos os tempos – seduzindo-os e burilando-os na intimidade do seu amor e, depois, lançou-os no meio do povo, com o objetivo claro e definido: testemunhar seu amor infinito, libertador e redentor (cf. Jr 20, 7).
Hoje me credencio para esta Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (ALMECE), na qualidade de Acadêmico Honorário, certamente por causa da minha contribuição em destacar, através dos meus escritos as duas figuras humanas, profundamente marcadas pela graça de Deus, que agora destacamos, Dom Helder Pessoa Câmara e Dom Aloisio Cardeal Lorscheider, pastores que edificaram a casa de Deus, isto é, a Igreja, tendo como alicerce sólido o bem e a justiça, não cedendo às ciladas dos injustos e poderosos. Neles a profecia de Jeremias se realiza: “Eu vos darei pastores segundo o meu coração, que vos conduzam com sabedoria e inteligência” (Jr 3, 15). Anunciaram a boa nova da Salvação em toda sua plenitude, a partir da dor e do sofrimento de uma multidão de irmãos e irmãs. O entusiasmo e a mística desses grandes sacerdotes causaram e continuam a causar profundas marcas de generosidade, sempre crescente, nas pessoas que exerceram e exercem suas funções nos mais diversificados setores de nossa sociedade.
Guardemos no íntimo do coração a mensagem de otimismo e esperança, deixada por Dom Helder Câmara, o artesão da paz e cidadão do mundo, o bispo brasileiro mais influente no Concílio Vaticano II, ao abrir o caminho para a renovação, na sua mais profunda e autêntica coerência em favor dos pobres: “Se não engano, nós, os homens da Igreja, deveríamos realizar dentro da Igreja as mudanças que exigimos da sociedade”.
Falou também com extraordinária paixão que Deus é amor, em tom daquilo que lhe era muito peculiar, a poesia: “Fomos nós, as tuas criaturas que inventamos teu nome!? O nome não é, não deve ser um rótulo colado sobre as pessoas e sobre as coisas... O nome vem de dentro das coisas e pessoas, e não deve ser falso... Tem que exprimir o mais íntimo do íntimo, a própria razão de ser e existir da coisa ou da pessoa nomeada... Teu nome é e só podia ser amor”.1
Ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, afirmou: “Ninguém se escandalize quando me vir ao lado de criaturas humanas tidas como indignas e pecadoras (...). “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar especial no coração do bispo”.2
Dom Helder além de deixar uma gigantesca obra escrita, com grande sabedoria soube unir, numa síntese raríssima e feliz o místico e o homem da ação, que contemplava e escrevia ao mesmo tempo durante as madrugadas e agia pela manhã, tarde e noite. Foi um articulador da melhor qualidade; dotado de uma fé clamorosa, de uma enorme capacidade de comunicação, força e convicção inabaláveis, que saía de dentro do peito magro, daquele homem baixo e franzino na estatura, que parecia o retirante de Portinari.
Profeta dos pobres, artesão da paz, cidadão do mundo, o homem dos grandes sonhos e das grandes utopias ele o foi, a sinalizar uma verdadeira conversão, nas mudanças dos costumes, no sentido de uma melhor compreensão da Igreja, na busca de sua renovação, do seu rejuvenescimento – ao verdadeiro “aggiornamento”, ao mesmo tempo, em que devia anunciar a pessoa de Jesus Cristo, diante do clamor dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”.
O grande ardor e entusiasmo desse homem, em todo seu trabalho bem articulado, no amor pela Igreja pobre e servidora, nunca podemos negar e esquecer. “Sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos”.3
Já Dom Aloísio, que no seu amor à verdade e no apego ao Evangelho, como critério de vida e de pastoreio, também na sua capacidade de dialogar com as classes sociais e no seu amor para com os empobrecidos, permaneceu humilde, serviçal, sendo um irmão entre irmãos.
Doçura e ternura em pessoa, alegria constante, posições corajosas e determinadas, ao mesmo tempo, pregava e anunciava o Evangelho com coragem profética e grande sabedoria. Ele carregou sempre no seu grande coração, as alegrias, as esperanças, as tristezas, as angústias e os sofrimentos de sua querida gente (cf. GS 200). Além de travar, sem jamais se cansar, uma luta pela redemocratização, pela liberdade de expressão, pela dignidade da pessoa humana e pelo fim da tortura em nosso querido Brasil.
Dom Aloísio, ao se tornar Arcebispo de Fortaleza (1973-1995), logo de início afirmou: “A comunidade eclesial não é feudo do bispo, mas ele é o servidor de uma Igreja que se entende a si mesma como sacramento do Reino, isto é, da presença da verdade e do amor infinito de Deus para com cada criatura humana”.4
Daí ele não compreender como algo natural e normal se conviver com a miséria e o acentuado empobrecimento do povo, que tinha como conseqüência o êxodo, o flagelo e a morte de muitos irmãos, levantando sua voz de profeta para dizer que não era vontade de Deus a realidade aqui encontrada e, ao mesmo tempo, usou de todos os meios, com uma enorme vontade de transformar essa mesma realidade, marcando profundamente a história do nosso Ceará.
“Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso”.5

Dom Aloísio foi o grande teólogo que sabia compreender a realidade na sua conjuntura e, com suas posições bem claras e definidas, nas análises e nas conclusões teológicas pastorais, passando para o povo um clima que favorecia e gerava uma confiança generalizada. Daí ser o Cardeal que mais se destacou em todos os Conclaves e Sínodos de que participou, gerando para o mundo inteiro e, especialmente para a imprensa, uma grande expectativa. Sua palavra corajosa e profética era acolhida por todos como uma boa notícia.
“[...] sua voz, naturalmente doce, alternava-se quando era preciso confrontar os vendilhões da justiça, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Sua voz ecoou pelos corredores das prisões [...]”.6

Quando ele se tornou bispo emérito de Aparecida, veio a pergunta: O que o senhor vai fazer? Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial mandar, porque a obediência me torna livre”.
Também nunca esquecemos sua palavra lúcida e segura, advertindo “oportuna e inoportunamente” (2Tm 4, 2), bem como sua voz mansa e corajosa em denunciar as injustiças e, sobretudo, sua ternura franciscana, nos leva a afirmar que Dom Aloísio, verdadeiramente, mora em nossos corações.
Peçamos então a Deus, que na sua infinita e inesgotável bondade, chamou Dom Helder e Dom Aloísio à missão de profetizar, que sempre os tenhamos como referência, iluminando-nos e fazendo sempre mais compreender a indispensável força de sua graça, num desejo de nos tornar capacitados a fermentar este mundo em que vivemos na sua realidade cultural e social, que tanto desafia a humanidade.

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1 Câmara, Dom Helder. Em tuas mãos, Senhor! Paulinas. São Paulo, 1986, p. 11.
2 Ibidem. Dom Helder: o artesão da paz. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2009, p. 88.
3 Saraiva, Geovane (padre). A ternura de um pastor: Cardeal Lorscheider. Fortaleza: Editora Celigráfica, 2009, p. 35.
4 Tursi, Carlo; Frencken, Geraldo (organizadores). Mantenham as lâmpadas acesas: revisitando o caminho, recriando a caminhada. Fortaleza: Edições UFC, 2008, p. 95.
5 Saraiva, Geovane (padre). A ternura de um pastor: Cardeal Lorscheider. Fortaleza: Editora Celigráfica, 2009, p. 22
6 Ibidem, p. 23

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Fortuna audaces juvat








Inicio minhas palavras com um pensamento daquele que carregou consigo a marca indelével da beleza como um mistério divino, da personalidade intelectual mais talentosa do povo brasileiro no século XVII, místico, pensador e orador de grande raridade e originalidade, Padre Antônio Vieira: "Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos quando fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos".
Recebo, entre surpreso e agradecido, a homenagem que me prestam os vereadores da nossa cidade de Fortaleza, estando à frente deste honroso acontecimento o Vereador José do Carmo, como reconhecimento pelos meus serviços desempenhados nas Paróquias para as quais fui destinado, a saber: Pio X – (Pan-Americano), São Francisco – (Dias Macedo), Paz – (Aldeota), antes de assumir, no dia 30 de novembro de 2003, a Paróquia de Santo Afonso, na Parquelândia, que partilho com meus queridos amigos aqui nesta casa do povo, a Câmara Municipal de Fortaleza.
Minha imensa alegria de encontrar-me no meio de vocês, gente boa, gente da melhor qualidade, em quem nutro muito carinho, orgulho e apreço, por ter de algum modo, participado de suas vidas, queridos amigos, através do meu ministério sacerdotal. Durante minha vida de padre, nestes quase 23 anos, não obstante minhas limitações, procurei não decepcioná-los, pisando no chão firme da nossa realidade, procurando compreender que a pessoa humana deve estar no centro de todo e qualquer planejamento pastoral, na sua melhoria sócio-econômico-político-cultural, na nossa sofrida cidade de Fortaleza, que a temos como parte integrante do planeta, obra da criação do nosso bom Deus, "gemendo as dores de parto" (Rm 8, 22).
Viver a vida cristã, como gente civilizada, como cidadão e como sacerdote católico, é um desafio e uma exigência. É, sobretudo, um exercício da nossa cidadania e do nosso ser cristão, que não significa ter um comportamento e uma atitude passiva, ao contrário, uma permanente atenção em favor das comunidades, na realidade desta cidade que deve ser um espaço de convivência solidária para todos os que aqui residem, com aquela clareza de que criatura humana, imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26), deve ser pensada e estar no centro das decisões que se tome nesta cidade de Fortaleza.
A Medalha Boticário Ferreira é um emblema de metal que, evidentemente, recorda o passado, a época vivida por Boticário Ferreira, em uma Fortaleza, com uma população em torno de 20 mil habitantes, que parecia andar a passos lentos, como era natural em todas pequenas cidades: tranqüilas, bucólicas e também românticas, com sítios e fazendas. A praça, que hoje é do Ferreira, chamava-se Dom Pedro II, que só a partir de 1871, doze anos após a morte de Boticário Ferreira recebeu o nome atual.
Podemos imaginar, através desta extraordinária figura humana, a bravura do jangadeiro, a paciência da mulher rendeira, a força e a coragem resistente do agricultor e do vaqueiro, na religiosidade e fé inabaláveis da nossa querida gente, sem esquecer os sofredores de toda natureza, personificados nos retirantes ou flagelados, olhando é claro, e tendo como modelo a pessoa do Padre Cícero e de São Francisco, o Santo de Canindé, sem esquecer a nossa poesia, representada pelo grande Patativa do Assaré.
A Comenda, que ora recebo, significa compreender a trajetória corajosa, encantadora e construtiva, repleta de trabalhos e sonhos, do grande brasileiro, o farmacêutico Antônio Ferreira Rodrigues, nascido na cidade de Niterói – Rio de janeiro (1799-1859), que por força das circunstâncias, acometido de uma infecção pulmonar, aportou na nossa querida cidade de Fortaleza em 1824, quando o nordeste já se fazia engrandecido e ensaiava seus primeiros passos revolucionários, buscando o bem estar de sua gente pelas ações da Confederação do Equador, com sua forte característica emancipacionista e republicana. Aqui estamos exatamente diante do que afirmavam os latinos: "Fortuna audaces juvat", isto é, a sorte ajuda, acompanha e está do lado dos corajosos.
Tudo faz indicar que o ilustre farmacêutico Boticário Ferreira tornou-se médico não por acaso, mas com uma vontade muito grande de salvar vidas da população desta cidade de Fortaleza do seu tempo. A todos ele atendia gentilmente e com o coração aberto e o mais importante era que a população confiava nos seus diagnósticos. Até Major Facundo, seu inimigo político (que viria a ser assassinado), adoeceu gravemente e caiu em suas mãos. Como profissional da saúde que era, não relutou em atendê-lo, salvando-o. Pelo milagre da saúde recobrada, toda a família do político e militar ficou sensibilizada e reconhecida e, a esposa do Major foi ao Boticário para agradecê-lo pelo pronto restabelecimento do marido e, ao mesmo tempo expressar o desejo de reatar a amizade a partir daquele momento. Ao que o médico Boticário Ferreira recusou, dizendo: "Saúde do meu adversário político sim, mas a sua amizade não".
Nesta circunstância em que me encontro, com vocês queridos amigos e queridas amigas, a homenagem me leva ainda mais a renovar meu compromisso com esta cidade de Fortaleza e a me colocar no caminho certo, sem nunca fugir de minhas obrigações, desafios e exigências que a vida me impõe. Nada adianta pôr os pés na estrada, se não nos alimentamos de sonhos e esperanças. A vida deste homem extraordinário e obstinado, que preparou bem sua mala, como se fosse uma grande viagem, neste terra da luz que o acolheu, nos leva a compreender os desafios e exigências da vida, que nos pede coragem, consciente de que no nossa viagem, como tão bem diz um provérbio alemão, "A bagagem mais pesada de um viajante é uma mala vazia".
Aproveito a feliz ocasião em sou homenageado com a mais alta comenda da cidade de Fortaleza para mostrar aos amigos e amigas o nosso livro: "A Esperança Tem Nome", com a honrosa apresentação do amigo e irmão, Dom Miguel Fenelon Câmara Filho, Arcebispo Emérito de Teresina – Piauí, e com o dadivoso prefácio do Deputado Mauro Benevides, nosso imortal da Academia Cearense de Letras. Penso que publicar um livro, por mais simples que seja, significa contribuir de algum modo com a humanidade, uma vez que "livro é luz, e se essa luz rola na terra, Deus colhe gênios no céu", dizia o grande poeta Castro Alves. Já uma afirmação daquele que disse que a "modéstia é a vaidade escondida atrás da porta", Mário Quintana, nos assegura que, "o verdadeiro analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê".
Indicando-me o caminho de que devo prosseguir na "condição de cultor de nossas letras", no dizer, depois de Antônio Conselheiro, do filho mais ilustre de Quixeramobim, Dom Miguel Fenelon Câmara Filho, veio-me do professor José Cajuaz Filho, ex-pároco da minha querida terra natal, Capistrano, pelos idos de 1957-1959, paroquiano e amigo, o seguinte comentário sobre o nosso livro, "A Esperança Tem Nome", que muito alegrou: "Compulsando-o, deparei-me no primeiro capítulo com a Cidade Celestial, com uma afirmação: Sem arriscar não se viver a esperança . Esta sua afirmação tem uma relação muito grande com o momento litúrgico que ora vivemos: a Quaresma. Neste segundo domingo, a liturgia nos adverte que a fé é um risco e nos mostra Abraão como protótipo desse risco. Ele acreditou e, por isso é o pai dos crentes e de uma grande nação. O mundo conturbado em que vivemos precisa de uma âncora para não sucumbir ao naufrágio. Essa âncora é a esperança e ela tem nome: A SALVAÇÃO. Concluindo eu lhe digo: Je suis content de vous".
Consciente estou, de que o livro, caindo no coração e na alma das pessoas assemelha-se a água da chuva que se transforma em mar. Bendito quem semeia livros e com isso estimulo o povo a ler e pensar.
Encerro o meu pronunciamento com um pensamento de outro grande discípulo de Santo Inácio de Loyola. Dom Luciano de Almeida: "Peço a Deus atuar na conversão dos homens, do egoísmo ao verdadeiro amor, sem conformismo e sem a impaciência dos violentos, para que as estruturas da convivência humana correspondam cada vez mais à dignidade dos filhos de Deus". Amém!
Pe. Geovane Saraiva, Pároco de Santo Afonso e autor dos livros: "O Peregrino da Paz" e "Nascido Para as Coisas Maiores" (centenário de Dom Helder Câmara), "A Ternura de um Pastor" (homenagem ao Cardeal Aloísio Lorscheider) e "A Esperança Tem Nome" (espiritualidade e compromisso).pegeovane@paroquiasantoafonso.org.br
Agradecimento e felicitações
Caro Pe. Geovane,
Agradeço-lhe muito pelo convite enviado para participar da outorga da Medalha Boticário Ferreira, assim como, pelo exemplar do novo livro que está lançando. Gostaria muito de participar, mas infelizmente, não posso por compromissos pastorais inadiáveis em Teresina. Receba o meu fraterno abraço, com os meus cumprimentos pela Medalha que está recebendo merecidamente e pela feliz iniciativa do livro "A esperança tem nome", de leitura muito agradável.. Parabéns! Asseguro-lhe minhas orações e fraterna estima. Seja feliz, com as bençãos de Deus!
D. Sergio da Rocha - Arcebispo Metropolitano de Teresina - PI

Caro amigo e irmão Pe. Geovane
Quero lhe parabenizar pela comenda, mui merecida de certa forma.
Também pelo discurso, faz jus a você que é um formador de opinião.
Aproveito para agradecer pelo imformativo da sua paróquia que muito me ajuda a interagir com o que acontece no ceará, no Brasil e no mundo, não só de Igreja mais de maneira geral.
Parabéns por tudo. Obrigado.
Pe. Bosco Leite.

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Dom Helder: forte e habilidoso

Dom Helder Pessoa Câmara, por sua simplicidade, humildade e estatura franzina, nos faz lembrar o jumentinho que Jesus escolheu para montar, na sua entrada em Jerusalém, animal sem aparente beleza, mas de uma importância, força e resistência extraordinária (cf. Mt 21, 2-8). O pastor dos empobrecidos foi assim, no seu temperamento e na sua audácia sem limites, isto acontecia quando tinha que defender seus pontos de vistas, com um profundo desejo, usando de todos os meios possíveis, para que a Igreja se engajasse na causa dos empobrecidos, que fosse mais servidora e mais fiel a vontade daquele que a instaurou e menos “senhora e rica”.
Falamos de uma criatura humana extremamente habilidosa e com uma desenvoltura, que se tornou o mais influente bispo brasileiro no Concílio Vaticano II (1962-1965), a ponto de decisivamente contribuir para que a Igreja, no nosso continente latino americano, nos anos que se seguia, fizesse a sua “opção profética e preferencial pelos pobres”.
Segundo o grande teólogo José Comblin, falecido recentemente, aos 88 anos, que conviveu muito de perto com o querido arcebispo de Olinda e Recife, dizia: “Ele era um articulador de primeira grandeza, com noção de que, às vezes, sua influência seria maior se ficasse calado e não se manifestasse”. Muitas vezes seus próprios colegas bispos ignoravam de onde vinham as excelentes propostas contribuições que estavam votando, narra José Combiln.
Já bem antes do Concílio, as vésperas da inauguração de Brasília, Juscelino Kubitschek chamou Dom Helder e o convidou para ser o prefeito da nova capital federal, sendo insistente. Afirmou que tinha o parecer favorável de todos os líderes partidários, depois de consultá-los. Dom Helder recusou polidamente, dizendo: “Hoje, senhor presidente, eu estou aqui, frente a frente, debatendo com o senhor pontos de vista com absoluta liberdade e sem condicionamentos de qualquer ordem. No dia em que me incorporar ao seu grupo de comando, dentro das injunções concretas das práticas políticas, eu estarei amarrado, balançando a cabeça para concordar com o que o senhor disser, deixando de lhe trazer a colaboração original e independente da Igreja. Eu quero ter sempre um canal de diálogo livre e respeitoso com o Estado para cobrar o seu dever. Quero fazê-lo em nome de Deus e do povo. Quero ser a boca dos que não têm vez nem voz”.
Compreendemos a força e a habilidade de Dom Helder, a partir daquilo que é belo e maravilhoso no poeta ou escritor, ao externar o que tem dentro de si: suas fantasias e suas ideias. Aquilo que ele tem na mente e no coração, releva-a e manifesta-a. Assim, também, foi o que aconteceu com os autores sagrados, ao redigirem as Sagradas Escrituras. Há tanta coisa bonita e surpreendente, muitas vezes, com tanto exagero, que se tem a impressão de se ir além do sagrado.
No último versículo do Evangelho de São João o autor sagrado afirma que o que Jesus realizou, neste mundo, é belíssimo e maravilhoso e, se tudo fosse escrito, livro algum caberia. O milagre da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21), finda dizendo: Os que comeram dos cinco pães e dos dois peixes eram cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. Estudiosos e especialistas da Palavra de Deus, sem negar, evidentemente, a divindade do Filho de Deus, acham um exagero, para aquele tempo, o grande número de pessoas.
Deus fez o homem com uma imaginação fértil e criadora, chamando-o para participar da sua natureza divina. Aí está sua grandeza. A terra tornou-se pequena para caber a criatura humana, grandiosa na sua capacidade de imaginar e realizações em todos os sentidos.
Padre Manfredo Oliveira, cearense de Limoeiro do Norte, grande figura humana e um dos maiores filósofos da atualidade, na sua mente dadivosa, foi extremamente feliz, ao afirmar que Dom Helder não cabia dentro da Igreja. Certamente ele quis enaltecer sua força imaginadora, talentos, sensibilidade e a inteligência privilegiada do pastor dos empobrecidos, que com habilidade soube perceber todas as novidades e desafios do século XX e colocá-los no seu coração, procurando dar-lhes uma resposta, indo da criatura humana, na sua dignidade de filho de Deus.
Já o Cardeal Aloísio Lorscheider falava de Dom Helder, assim: “Foi um corifeu, com uma visão de futuro e com grande influência, muito respeitado e inquieto como uma barata tonta: Sua tribuna foi sua sabedoria em agir e articular nos bastidores”, com uma oratória vibrante e com gestos rasgados que sensibilizavam e arrebatavam as multidões.
Tudo ele realizava, numa atitude de oração e na fidelidade ao Pai, no seu amor acendrado à Igreja. Ele mesmo dizia: “Abandonar a Igreja seria o mesmo que abandonar o meu próprio corpo”. Por isso devemos acolher tudo o que se disse e o que ainda irão dizer desse homem profundamente amado por Deus. Ele, na força e habilidade mística, via tudo em Deus e a partir de Deus. Extraordinária figura humana, profundamente marcada pela esperança, de fato é grande demais, e a Igreja é pequena para comportá-lo.

Pe. Geovane Saraiva, Pároco de Santo Afonso
pegeovane@paroquiasantoafonso.org.br
https://twitter.com/pegeovane
(85)3223-8785
De sua autoria: “O peregrino da Paz” e “Nascido Para as Coisas Maiores” (centenário de Dom Helder Câmara)
“A Ternura de um Pastor” (homenagem ao Cardeal Lorscheider)
“A Esperança Tem Nome” (espiritualidade e compromisso)
Francisco Geovane Saraiva Costa, RG. 93002461927 – Av. Jovita Feitosa, 2733 – Parquelândia – Fortaleza - CE



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Dom Helder: sonhos e utopias

Dom Helder: sonhos e utopias

“Eu tenho fome e sede de paz. Dessa paz do Cristo que se apóia na justiça. Eu tenho fome e sede de diálogo, e é por isso que eu corro por todos os lados de onde me acenam, à procura do que pode aproximar os homens em nome do essencial... E falar em nome daqueles que são impedidos de fazê-los” (Dom Helder Câmara).
Somos templos de Deus e ao mesmo tempo chamados a ser, a exemplo de Dom Helder Câmara, o artesão da paz, o profeta da esperança, dos grandes sonhos e utopias, a viver como ele viveu como anunciadores dessa mesma esperança, por ele proclamada, ao alimentar em nós aquele profundo desejo de transformação do mundo e também a idéia de que outro mundo é possível.
Nunca podemos deixar de declinar e disso não podemos prescindir e digo, que modo resplandecente, o nome de Dom Helder Pessoa Câmara, este que o consideramos o maior brasileiro de todos os tempos. Com Dom Helder o humanismo sempre prevaleceu, e de um modo sempre crescente, seja no campo cultural e intelectual, econômico e social, ensinando a nos convencer sempre e cada vez mais que a pessoa humana na sua dignidade é um dom maravilhoso do Pai e neste raciocínio guardemos seu pensamento: “A melhor maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes” (Dom Helder Câmara).
Predestinado para as coisas maiores, possuidor de uma força incansável, com muita alegria e esperança no coração, totalmente convertido a uma grande tarefa de construir Reino, a utopia mais bela e maravilhosa, Dom Helder não se acostumou, a ponto de se indignar com a miséria humana, porque ela fere o rosto do Deus Criador e Pai e contraria sua vontade. Por isso mesmo, decidiu, com muita obstinação e a ternura do “Bom Pastor”, levantar firmemente a voz e lutar, com o desejo de derrotá-la.1
Segundo o grande teólogo José Comblin, falecido no início deste ano 2011, aos 88 anos, que conviveu muito de perto com o querido arcebispo de Olinda e Recife: "Ele era um articulador de primeira grandeza, com noção de que, às vezes, sua influência seria maior se ficasse calado e não se manifestasse". Muitas vezes seus próprios colegas bispos ignoravam de onde vinham às excelentes propostas contribuições que estavam votando, narra José Comblin.2
Já bem antes do Concílio, às vésperas da inauguração de Brasília, Juscelino Kubitschek chamou Dom Helder e o convidou para ser o prefeito da nova capital federal, sendo insistente. Afirmou que tinha o parecer favorável de todos os líderes partidários, depois de consultá-los. Dom Helder recusou polidamente, dizendo: "Hoje, senhor presidente, eu estou aqui, frente a frente, debatendo com o senhor pontos de vista com absoluta liberdade e sem condicionamentos de qualquer ordem. No dia em que me incorporar ao seu grupo de comando, dentro das injunções concretas das práticas políticas, eu estarei amarrado, balançando a cabeça para concordar com o que o senhor disser, deixando de lhe trazer a colaboração original e independente da Igreja. Eu quero ter sempre um canal de diálogo livre e respeitoso com o Estado para cobrar o seu dever. Quero fazê-lo em nome de Deus e do povo. Quero ser a boca dos que não têm vez nem voz".3
Deus fez o homem com uma imaginação fértil e criadora, chamando-o para participar da sua natureza divina. Aí está sua grandeza. A terra tornou-se pequena para comportar a criatura humana, grandiosa na sua capacidade de imaginações e realizações em todos os sentidos. Padre Manfredo Oliveira, cearense de Limoeiro do Norte, grande figura humana e um dos maiores filósofos da atualidade, na sua mente dadivosa, foi extremamente feliz, ao afirmar que Dom Helder não cabia dentro da Igreja. Certamente ele queria enaltecer sua força imaginadora, talentos, sensibilidade e a inteligência privilegiada do pastor dos empobrecidos, que com habilidade soube perceber todas as novidades e desafios do século XX e colocá-los no seu coração, procurando dar-lhes uma resposta, indo ao encontro da criatura humana, com sua dignidade, imagem e semelhança de Deus.4
No último versículo do Evangelho de São João o autor sagrado afirma que o que Jesus realizou, neste mundo, é belíssimo e maravilhoso e, se tudo fosse escrito, livro algum caberia. O milagre da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21), finda dizendo: Os que comeram dos cinco pães e dos dois peixes eram cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. Estudiosos e especialistas da Palavra de Deus, sem negar, evidentemente, a divindade do Filho de Deus, acham um exagero, para aquele tempo, alimentar aquele grande número de pessoas. Deus fez o homem com uma imaginação fértil e criadora, chamando-o para participar da sua natureza divina. Aqui está sua grandeza, 5 e a do querido pastor dos empobrecidos.
Já o Cardeal Aloísio Lorscheider falava de Dom Helder, assim: "Foi um corifeu, com uma visão de futuro e com grande influência, muito respeitado e inquieto como uma barata tonta: Sua tribuna foi sua sabedoria em agir e articular nos bastidores", com uma oratória vibrante e com gestos rasgados que sensibilizavam e arrebatavam as multidões. 6

Sua força imaginadora, sua criatividade e, sobretudo, sua capacidade de produzir e realizar as coisas foram extraordinárias, fazendo surgir uma nova Igreja, uma Igreja marcada, profundamente pela esperança, como ele afirmava: “Esperança é crer na aventura do amor, jogar nos homens, pular no escuro, confiando em Deus”. Ele se antecipou, em idéias e vestes, ao “aggiornamento” que o Papa João XXIII promoveu e com o qual iria revolucionar, não apenas a Igreja, mas o mundo hodierno. 7
Dom Helder foi um articulador, na melhor expressão da palavra, um conspirador, pensando no bem, com suas iniciativas, compartilhadas por muita gente da Igreja, desejando fazer com que a Igreja-Instituição se comprometesse e se engajasse na causa dos empobrecidos, identificando-se com seu Fundador e Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo. Pensava e desejava ele uma Igreja mais pobre e mais servidora. O “Pacto das Catacumbas”, documento desafiador e ao mesmo tempo salutar, 16 de novembro de 1965, que foi uma excelente oportunidade para uma boa parte dos bispos pensarem e refletirem sobre eles mesmos, no sentido de viver na simplicidade e na pobreza, numa Igreja encarnada na realidade, comprometida com seu povo, renunciando às aparências de riqueza, dizendo não às vaidades, consciente da justiça e da caridade.8
Ele não só pensou e imaginou, mas teve clareza e persistência e, com suas idéias fixas, aspirou por um mundo segundo a vontade Deus, de tal modo que os seus sonhos e utopias transformaram-se em realidade. Essa afirmação nos faz pensar nas suas obras e realizações em favor da humanidade. É só olhar para seus escritos, poemas e pensamentos. Sua fidelidade a Deus e ao povo o fez manter-se acordado, olhando para dentro de si e, ao mesmo tempo, externando-a através desses mesmos ideais.
Como Abraão, acreditou, sem jamais perder a esperança. Daí as marcas profundas deixadas por este homem de Deus. Após o seu centenário, percebemos, com todas as evidências, tudo o que ele representou para o Brasil e para o mundo, como símbolo, como patrimônio e, sobretudo, como referencial. Por isso, mesmo que alguém ou grupo tente ofuscar ou neutralizar, não irá destruí-lo nunca. A história o tem e o terá sempre como imortal.
Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Dom Helder dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”. 9
Que o nosso bom Deus nos anime e nos encoraje, para que possamos, a seu exemplo, superar os obstáculos, próprio da vida, quando afirmava: "Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

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1 SARAIVA, Geovane (Padre). Nascido Para as coisas maiores. Fortaleza: Editora Celigráfica, 2009, p. 33.
2 SANTIAGO, Vandeck. Revista Continente. 100 anos de Dom Helder. N0 98.
3 SARAIVA, Geovane (padre). Dom Helder: forte e habilidoso. Boa Notícia, 2011.
4 Ibidem, p. 39.
5 Ibidem, p. 40.
6 Tursi, Carlo; Frencken, Geraldo (Org.). Mantenham as lâmpadas acesas: revisitando o caminho, recriando a caminhada. Fortaleza: Edições UFC, 2008, p. 65.
7 Ibidem, p. 40.
8 CONY, Carlos Heitor. Dom Helder aos 80. Revista manchete, 04 de março de 1989.
9 Dom Helder: o artesão da paz. Brasília: Senado Federal. Conselho Editorial, 2009, p. 88.

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Medalha Dom Helder, O ARTESÃO DA PAZ

O ARTESÃO DA PAZ
A Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (ALMECE), na pessoa do seu Presidente, Francisco Lima Freitas, no uso de suas atribuições, entregará a Medalha dom Helder Câmara, O ARTESÃO DA PAZ ao Pe. Geovane Saraiva, considerando sua disposição de ficar à frente da COMISSÃO que organizou o centenário de nascimento (1909-2009) de Dom Helder Pessoa Câmara.
Pe Geovane realizou um profícuo trabalho, proporcionando às pessoas, especialmente os mais jovens, ávidos de conhecimento, sobre a figura de Dom Helder, sobretudo, através dos inúmeros artigos publicados em jornais, revistas e sites. Contamos ainda, na sua lavra literária, com os livros “O Peregrino da Paz” e “Nascido para as Coisas Maiores”. A intenção do autor é fazer com que as pessoas descubram a grandeza de alma desse homem marcado profundamente pela graça de Deus, ao afirmar: "Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como a minha sombra”.
A contribuição do querido Pe. Geovane foi imprescindível para que a força da figura humana, o homem dos grandes sonhos e utopias, que se transformou noutro “Cavaleiro Andante” fosse mais conhecida, não só entre nós cearenses, bem como no nosso querido Brasil e no mundo inteiro.
Assim, nós da ALMECE, com essa iniciativa, ao mesmo tempo em que fazemos justiça, rendemos graças ao nosso bom Deus, através de Dom Helder, que dizia: “Eu queria ser uma humilde poça d'água para refletir o céu”, condecorando Pe. Geovane Saraiva.
Local: Academia Cearense de Letras
Rua do Rosário, No 1 – Centro.
Dia 22 de dezembro de 2011, às 19h
Fonte: Almece

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ELOGIO

Em primeiro lugar,gostaria de aproveitar esse espaço para parabenizar ALMECE pelo trabalho que vem realizando.Acabei de conhecer os trabalhos através de uma amiga Leila Maria que me convidou na ocassião de lançamento do livro da escritora Linda Lemos.Eu sou estrangeiro radicado na terra alencarina e quando estive numa situação de privação da liberdade,acabei editando um livro que narra essa experiência no Ceará,mostrando que quando há oportunidade,as pessoas encarceradas podem ser resgatadas.HOJE EU SOUTEÓLOGO, ESCRITOR, ALMOXARIFE, FUNCIONÁRIO DA SECRETARIA DA JUSTIÇA E CIDADANIA DO ESTADO DO CEARÁ. PARTICIPOU DO CONCURSO NACIONAL DE REDAÇÃO (ESCREVENDO A LIBERDADE.) SENDO UM DOS PREMIADOS EM 2007.
PARTICIPAÇAO NA REVISTA FAROL (PUBLICAÇÃO DA PREFEITURA MUNICIPAL DE FORTALEZA AGOSTO 2011)PAG.23. PARTICIPAÇÃO DA PÁGINA DE OPINIÃO DO JORNAL OPOVO NO DIA 02 DE AGOSTO 2011.
AUTOR DO LIVRO PENAS MAIS RÍGIDAS: JUSTIÇA OU VINGANÇA? ATUALMENTE CURSA ESPECIALIZAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA PELA UNIVERSIDADE DO PARLARMENTO CEARENSE EM PARCERIA COM A FACULDADE ATENEU.

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